Domingo, 06 de Abril de 2025
facebook instagram youtube twitter whatsapp
Chapada dos Guimarães
icon-weather
Domingo, 06 de Abril de 2025
facebook instagram youtube twitter whatsapp
Chapada dos Guimarães
icon-weather

Opinião Sábado, 05 de Abril de 2025, 10:49 - A | A

Sábado, 05 de Abril de 2025, 10h:49 - A | A

Elismar Bezerra Arruda

Aquilo, n'era só aquilo, não!

Elismar Bezerra Arruda

Desde o viver de antes de antigamente, medido em milênios, quando a casa era a caverna ou outros abrigos naturais, e a comida era o que a mão alcançava colher pronta nas árvores, nos ninhos ou matar de emboscada – desde esse tempo distante, tem-se registros, indicações, de que os humanos, vez em quando, tentavam extrapolar os limites do corpo, dar vazão às doidices da mente, mediante algum alucinógeno. Do que se vê pintado, esculpido ou desenhado em pedras, parece que a mente, atormentada por não saber o que via, sempre careceu de se ausentar por algum tempo da própria materialidade, dos limites do corpo, da normalidade cotidiana, para viajar além da razão; como se a desafiar tudo o que se via e sentia e a enfastiava, instigando-se para novas construções espirituais, e reinventar a corporeidade.

A razão, por não suportar a si mesma, dá-se a devaneios e loucuras, pra depois dizer circunspecta, que não estava em si. Às vezes, assim se faz, só no tempo amoroso e exíguo do leito; mas, noutras e não raras vezes, transborda-se para os demais ambientes da vida, e cria o belo, como a valsa Nº 7 de Chopin: é quando Deus se vê em êxtase, satisfeito com o que criara. E tão assim é, que a alma agreste vaga-leve e, ao olhar as próprias mãos calosas, inebriada pela harmonia, ri riso-besta, de tão bêbada...

Tudo é, e não é. Porque, um doido tem suas razões; de modo que causa medo, não pelo que diz e faz, mas pelo que os que não estão doidos vêm nele de normal. Na verdade, a loucura, reparado bem, é uma dimensão da razão; talvez, a mais interessante. Hosana quando enlouqueceu (“lembram?”), rasgou as vestes, falava obscenidades, mostrava as partes íntimas e gemia desejos; os homens casados viravam-lhe o rosto, querendo vê-la mais – suas esposas (“eles não sabiam”), sucumbidas em casamentos estéreis de prazer, aquém e além do leito, desejavam cabisbaixas aquela coragem para os dizeres e gestos...

Olha, o Sujeito-indivíduo tem a máxima importância, mas, é por seus predicados que essa importância se confirma ou não, no mundo em que habita; ocorre que tais predicados (“vejam bem!”), são construções cotidianas do próprio sujeito, mas, olha que coisa bonita e engenhosa: nenhuma se dá sem a presença ativa de outros sujeitos! Daí que nunca são a expressão da vontade, da necessidade-interesse, de um só, sozinho, de maneira que se matiza sempre das vontades e desejos e necessidade do outro; a finura disso, é que qualquer coisinha daquele-um-sozinho pode fazer tudo desandar: uma alegria, um acesso de raiva desmedido, o relembrar besta de uma rixa antiga, a dor de um desprezo cultivada, um trisco de nada, põe tudo a perder – porque pensar certo, e fazer assim, não é fácil, nem leve...

A vida só é fácil na partida, quando nada se sabe e nem precisa; e na chegada-final, quando nada mais interessa. A vida não se deixa conhecer, olhada de soslaio: exige prestar atenção, demorar no exame dos seus detalhes. Como a capacidade de pensar, de aprender e urdir um entendimento bom e novo, que parece ser natural dos humanos, como se lhes fosse inerente, a lhes caracterizar o ser, desde sempre; quando, na verdade (“repito-lhes de novo, novamente”), é uma construção sempre inconclusa, que já dura milênios. Daí que o mistério que segue, desconfortando Natural – que fala e entende as linguagens diversas dos bichos e passarinhos e gosta de ouvir o vento – é o porquê de essa capacidade de tecer e exibir entendimentos, ser coisa restrita dos humanos; por isso Natural segue querendo ser como menino, no ver e sentir as coisas, e dizer o que ouve delas. Então, quando chove, estende sua Alma no terreiro e se deixa quarar inteiro, como sua vó fazia com as roupas na beira do rio: ele não divisa as coisas terrenais das celestiais, daí ter riso fácil e bonito de se ver...

Olhe bem: Deus escreve certo pelas coisas certas, vistas como erradas pelo olhar prostituído pelo interesse deletério: a verdade está no sentimento verdadeiro, e não nas coisas – ainda que o sentimento careça da materialidade do corpo para ser. (“O corpo não é coisa!” – Lembram? Foi o que disse Taboca, aquela prostituta magrinha, ao peão que, por pagar, achava que podia possuí-la por inteiro...”) Quem sabe, o mistério esteja em se saber que nunca, ninguém, por si só, sozinho, saberá o suficiente para determinar a verdade; o Senhor careceu de Doze para espalhar a verdade no mundo, e, o que era a Verdade, senão, o Sentimento-Amor: mas, um, um só, deu-se à mentira por trinta dinheiros, e o Crucificou...

O saber profundo do mais afamado cientista, careceu das sabenças de outro, de um que nem letra sabia ler e desenhar; o desespero daquele cientista por reputação, querendo ser-maior, sozinho, fez essa interação tão bonita, que o engrandecera, ser escondida, esquecida, para só se saber o que escreveu e disse o cientista. E o fez numa linguagem tão dele, do seu mundo de poucos, que aquele um-inicial nem notícia teve, e jamais entenderia. Então, veja o desígnio do mundo humano: desde o início, cada um teve a necessidade do outro, e de um jeito que, no correr dos milénios, essa necessidade só cresceu, mas na mesma simplicidade – que parece misteriosa, só porque o que se apresenta maior, poderoso, totalizando tudo, é nada ou quase nada, sem a sua mais pequenina parte...

Na varandinha, onde o vento geral gostava de passar varrendo o calor do outono ribeirinho, a velha preguiçosa de madeira pesada aconchegava com suas cobertas almofadadas o estar-sendo, daquele jeito, de Padre Amâncio. Ali, desde que o peso da idade minguou suas forças, desvanecendo suas vontades de visitar casas e sítios da sua gente, e teve que se aposentar, o velho padre deu para esses pensamentos; porque, quando a pessoa é privada das coisas que mais gosta, parece que se desacorçoa do mundo e se volta pra dentro de si, buscando-se, talvez. Às vezes, Du Carmo – que cuidava do padre nos seus “últimos dias”, que já duravam anos – ouvia ele dizer em voz muito baixa aquelas coisas todas; não entendia, não sabia se ele sonhava, se delirava, mas ela gostava de ouvi-lo: parecia um sermão amoroso, cantado compassadamente, numa continuação quase sem fim, como se para alegrar gente triste. Era o que Du Carmo achava ser, acreditava!

O padre que viveu a sua paróquia por todas as atividades que incentivava, animava e sugeria, participando de tudo com satisfação de quem gosta – agora estava ali, a cochilar, dormir e, assim, a falar coisas ou só pensar-sonhando, assistido por Du Carmo. Ela tudo ouvia num silêncio serviçal, velando, às vezes, com o juízo ardendo de tanto tentar entender o que ele pensava-sonhando e dizia-falava dormindo, ou fingindo dormir. Era um estar-ali de silêncios, quebrados pelo arrastar do chinelo no piso, ou pelo barulho de algum utensílio que lhe escapava das mãos; falava ao padre apenas o que era necessário, estivesse ele com olhos fechados ou não, receosa de incomodar...

– Padre Amâncio, hoje teremos visita...” De olhos fechados, o padre atalhou Du Carmo: “Que hora Natural disse que virá?” Du Carmo se assustou com a energia com que lhe perguntara e, mais ainda, por saber que era Natural que vinha lhe visitar: “Gente do céu, como ele sabe, se não disse nada e ninguém aqui veio...”; perguntou-se assombrada.

Era o meio da tarde. Du Carmo terminou de preparar o café e os bolos para a visita, como sempre fazia: mangulão, peta e uns biscoitinhos doce de polvilho; arrumou tudo sobre a mesa, que antes forrou com uma toalha amarelo-desbotado, em que se destacava as cores e motivos do bordada à mão, cuja artesã conjugou numa singular harmonia, ponto reto, ponto atrás e ponto cheio, formando uma bela obra de arte. Du Carmo esmerava nas coisas que fazia, ficava bonito de se ver: o bule de ágata azul, as canecas de café e os bolos agasalhados cada tipo num pratinho diferente, tudo compondo com a toalha bordada, com as cadeiras de madeira e couro cru e o piso vermelho da sala em cimento-queimado...

Arrumou tudo e foi à varandinha esperar a visita: assustou-se ao ver Natural sentado ao lado do padre, em silêncio, apoiando a cabeça na mão direita encaixada no queixo, como se ali estivesse há um bom tempo. Sem se mover, nem abrir os olhos, o padre falou fingindo ciúmes: “Toda essa beleza que você está vendo ali, Natural, a Du Carmo fez pra você...”; o visitante olhou divisando pela janela, a mesa na sala, com um olhar bom riu em agradecimento, entendendo a graça do padre como elogio-agradecimento a Du Carmo. Ela riu de satisfação, e ficou a assistir o silêncio dos dois, como se a conversarem por pensamentos, com significados que seu conhecimento pouco não discernia, mas sentia e gostava de sentir aquilo: porque, o que é benfazejo, é leve e se entranha sem alarde...

Natural chegara como se devia chegar, daquele jeito, desimportante: como se nunca estivera, como se sempre estivesse; sentou-se num tamborete, quase defronte, meio de lado do padre, recostado na preguiçosa – e ficou a olhá-lo, como quem admira o que se afigura só na mente, depois de entendida a matéria. Du Carmo olhava com o espírito inquieto: “Sei que conversam assim, mas não é normal duas pessoas ficarem assim, desse jeito: um velho de quase cem anos e um menino que nem vinte tem!”, pensava. De vez em quando Natural também fechava os olhos, respirava fundo, depois abria-os e olhava o teto nu da varanda sem forro: parecia flanar, de tanta leveza-terna com que olhava e via...

Tinha vontade de falar com outras pessoas sobre aquilo, mas Du Carmo se continha, imaginando ser uma infidelidade ao padre; tentando se impor ao silêncio enervante, disse: “-As coisas vão esfriar na mesa!” Natural se levantou, encheu uma xícara de café, pegou um pedaço do mangulão e voltou a se sentar no tamborete, dizendo em quase sussurro: “Quando vim, o vento geral estava fazendo banzeiro, como se lhe mandasse lembrança, padre...”. O padre riu com o canto da boca, sem abrir os olhos, respondeu: “–É: ele não me esquece, nem eu, amar tem essa eternidade...”; e, como se lesse a mente inquieta de Du Carmo, ordenou-lhe, pedindo: “Pode trazer, Du Carmo”. Então, numa bandeja pequena agasalhou uma caneca com café, uma peta e um bolinho doce, trouxe-os e, com jeito, pôs nas mãos espalmadas do padre, que os acomodou sobre sua barriga farta; assim, os dois comiam com vontade, devagar: sentido, mastigando e absorvendo os cheiros, a atmosfera do instante, o canto e a carícia leve do vento, gozando o gosto – que é muito mais que um reles sentir sabor...

– Du Carmo! Ouça bem, Natural! Chamou-lhes, quase gritando, o padre; tomando-os de surpresa pelo tom da voz e pelo modo incomum de falar:
– Deus não se apraz com a dor de ninguém! São vãs e ofensivas, essas promessas de subir morro, ficar sem comer isso ou aquilo, carregar pedra sobre a cabeça, oferecer, algum sofrimento seu a Deus, ou aos seus Santos, para merecer uma Graça. Digam-me: que pai quer o filho ou a filha padecendo a dor antes, o sofrimento, para, só depois merecerem a graça, a alegria?! Essa perversidade não é coisa do Senhor, não: é dos homens perversos! Vejam a beleza da festa que Mamede do Rosário organiza lá no seu sítio, em amor a Santo Antônio! Lembram? Cedinho, à Alvorada, celebra uma Missa alegre, com violão, sanfona e pandeiro, para lembrar que o Sacrifício do Cristo não é para a tristeza, mas para a alegria dos que creem! Lembram? Depois da Missa, as pessoas tomam o café com satisfação de confraternização verdadeira; e assim, também o almoço: que é como celebração da alegria de se alimentar em comunhão. Então, digo por fim: o certo é oferecer alegria e satisfação pra Deus: um canto-alegre, um recital, plantar um jardim, um pé de jenipapo, uma laranjeira, fazer uma seresta, convidar um velho esquecido pelos filhos para um almoço de domingo... tristeza e dor, sacrifícios, não! Amém...

Natural ouviu tudo em silêncio. Viu o padre fechar os olhos, silenciando-se como se dormisse, com as mãos sobre o peito suspirou demorado, com calma, satisfeito. Levantou-se, olhou outra vez o padre, passou as mãos no próprio rosto, tirando nuvens dos olhos, olhou Du Carmo desfazendo a mesa, e saiu em silêncio...
Era já noite fechada, quando Du Carmo despertou assustada, incrédula, com a sonolência que nunca sentira antes, e que a fizera dormir até aquela hora. Lembrou-se apavorada, que não havia ajudado o padre a ir para a cama, como fazia todos os dias. Correu à varandinha e lá estava ele, tal como havia ficado desde aquele discurso longo e inusual, após o café da tarde. Chamou uma, duas, três vezes, sem resposta; tocou-lhe as mãos e achou-as muito frias, pôs as costas das mãos na face do padre, na testa, no pescoço, e aquele frio passou-lhe das mãos à espinha... Du Carmo sacudiu o padre na preguiçosa e um dos braços pendeu ao lado, com a mão tocando o chão sem nenhum vigor...

O dia amanheceu com cantos e rezas das pessoas que lotavam a igrejinha defronte pro rio. Padre Amâncio se despedira em silêncio, sozinho, sem ocupar ninguém com cuidados, nenhum gemido, sem dor, parece. Nos seus consigos, Du Carmo se martirizava por não o ter assistido nos seus últimos instantes, embora visse no que lhe acontecera, um mistério; com seus olhos de choro, afeição e silêncio, olhava-o no caixão, disposto em frente ao Altar. Olhou outra vez o salão, pelos vãos das janelas e portas olhou lá fora e não viu Natural; depois, perguntou: ninguém sabia, “desde ontem à noitinha, ninguém mais viu...”

Prof. Dr. Elismar Bezerra Arruda é professor na rede pública de ensino

 

O Alô Chapada não se responsabiliza pelas opiniões emitidas neste espaço, que é de livre manifestação

Entre no grupo do Alô Chapada no WhatsApp e receba notícias em tempo real 

Volte para capa do Alô Chapada

Comente esta notícia



contatoalochapada@gmail.com

(65) 99235-9330